terça-feira, 7 de novembro de 2017

Resenha Mulheres de cinza, de Mia Couto, trilogia As areias do imperador





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Sempre forte a presença feminina negra nas obras de Mia Couto


"Mulheres de Cinza" é o primeiro livro de uma trilogia sobre os derradeiros dias do chamado Estado de Gaza, o segundo maior império em África dirigido por um africano.
Ngungunyane (ou Gungunhane, como ficou conhecido pelos portugueses) foi o último de uma série de imperadores que governou metade do território de Moçambique. Derrotado em 1895 pelas forças portuguesas comandadas por Mouzinho de Albuquerque, Ngungunyane foi deportado para os Açores onde veio a morrer em 1906. Os seus restos mortais terão sido trasladados para Moçambique em 1985. Existem, no entanto, versões que sugerem que não foram as ossadas do imperador que voltaram dentro da urna. Foram torrões de areia. Do grande adversário de Portugal restam areias recolhidas em solo português. Esta narrativa é uma recreação ficcional inspirada em factos e personagens reais. Serviram de fonte de informação uma extensa documentação produzida em Moçambique e em Portugal e, mais importante ainda, diversas entrevistas efectuadas em Maputo e Inhambane.




Antes de começar gostaria de avisar que sou apenas uma leitora de impressões simples e sem técnica de resenha. Vamos lá!

Inicia-se o livro com os dizeres "A estrada é uma espada. A sua lâmina rasga o corpo da terra. Não tarda que a nossa nação seja um emaranhado de cicatrizes, um mapa feito de tantos golpes que nos orgulharemos mais das feridas que do intacto corpo que ainda conseguirmos salvar." E é exatamente assim a história da humanidade, desfiguramos a terra para depois tentar retomá-la ao antes.

Mulheres de Cinza é o primeiro livro da trilogia As areias do Imperador, a personagem protagonista apresenta-se e apresenta a família, da importância ao nome dado a cada ser e de esse nome ser um "ato de poder" e dos vários nomes que já teve em sua curta existência até ali, O livro tem como norte a colonização portuguesa na África, especificamente, em Moçambique. Temos vislumbres das superstições, tradições, sinais de povos tão opostos e tão iguais.

 A história é narrada por dois personagens: a Imani e o sargento português Germano de Melo, os dois pontos de vista significativos diante da guerra, o que sempre me surpreende é a forma magnífica que o autor caracteriza suas personagens femininas, a mãe de Imani tem uma grande sacada para se sair de uma situação muito difícil e consegue com tal maestria e sabedoria que eu jamais seria capaz de imaginar.

Destaca-se a ferocidade humana diante do conflito armado, como os comportamentos se tornam bizarros diante de grandes transformações, da imposição da língua, da religião, dos costumes do colonizador e colonizados. Uma parte que se destacou e que me fisgou de vez para ler LOGO os três volumes foi este trecho: "Alguns de nós, humanos, temos esse mesmo destino: falecidos por dentro, e apenas mantidos pela parecença com os vivos que já fomos."

A verdade contida nesta frase conquistou meu coração, sofremos tantas perdas ao longo da vida, tristezas e decepções que terminamos por morrer um bocadinho. Mas não pense que é um livro deprimente, ao contrário, a alegria e a união andam juntas, obviamente a musicalidade, a dança e a alegria é por conta do negro, já o nosso sargento Germano é altamente melancólico, gera um verdadeiro choque de duas culturas.

Eu poderia retirar trechos significativos e poéticos e lindos e emocionantes e faria um outro livro. Mia Couto é para saborear e ser saboreado e como diz a mãe de Imani - "para a minha loucura basta-me uma pequena porção da Lua". A prosa  de Mia Couto são repletas de imagens lindas que nos evocam a algo antigo e , por mais estranho que pareça no momento, eu e o livro somos um só, a mesma história, as mesmas personagens, a mesma vivência.

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